Existe um tipo de sofrimento que não aparece em exames, não interrompe rotinas e não chama atenção de ninguém. É o sofrimento de quem continua funcionando.
A pessoa acorda, cumpre horários, estuda, trabalha, entrega resultados. Por fora, tudo parece em ordem. Por dentro, algo começa a se esvaziar lentamente. Não é uma dor aguda. É um cansaço existencial que vai se acumulando em silêncio.
A sociedade aprendeu a valorizar quem não para. Desde cedo, somos treinados para produzir, resistir e suportar. Pouco se fala sobre sentir. Muito menos sobre falhar. O resultado é uma geração inteira que sabe funcionar, mas não sabe descansar sem culpa, sofrer sem vergonha ou pedir ajuda sem se sentir fraca.
Na prática clínica e na vida real, esse padrão se repete. Pessoas que não “parecem doentes”, mas vivem adoecidas. Não estão em crise, mas também não estão bem. Aprenderam a sustentar a própria dor em silêncio, como se isso fosse maturidade.
O problema é que o corpo e a mente não esquecem. O que não é nomeado não desaparece — se manifesta de outras formas. Ansiedade constante, irritabilidade, insônia, sensação de vazio, perda de sentido. Não raramente, tudo isso aparece quando a pessoa finalmente para. Quando o ritmo diminui, o que foi empurrado para debaixo do tapete vem à tona.
Existe uma romantização perigosa da força emocional. Como se ser forte fosse não sentir. Como se vulnerabilidade fosse sinônimo de fraqueza. Essa lógica não só é falsa, como adoecedora. Ser humano não é funcionar perfeitamente. É sentir, falhar, precisar e, às vezes, parar.
Nomear o sofrimento não é se vitimizar. É um ato de lucidez. É reconhecer limites antes que o colapso aconteça. É compreender que saúde mental não é ausência de dor, mas a capacidade de escutar o que a dor está tentando dizer.
Este texto não é um diagnóstico, nem uma resposta pronta. É um convite. Um convite para olhar com mais honestidade para aquilo que você vem sustentando sozinho. Talvez você não esteja fraco. Talvez esteja apenas cansado de funcionar sem existir.